Livro: Frenesi Polissilábico – Nick Hornby

Se eu fosse escolher uma maneira de escrever um romance (lembrem-se que não tenho pretensões escrivinhadoras) escolheria a de Hornby. Ele é inglês. Tudo bem, preciso de mais motivos… ele é inglês, ele escreve de maneira simples e clara, ele é inglês, ele sabe ser divertido, ele é inglês.

Frenesi Polissilábico é uma coletânea de artigos publicados na revista Believer entre setembro de 2003 e junho de 2006. Só para dar uma ideia, nas primeiras 70 páginas eu já tinha anotado 7 livros que gostaria de ler, e isso não significa que eu me interessei por todos os livros citados por Hornby.

Nick Hornby

No começo de cada coluna Hornby lista os livros comprados no mês e os livros lidos. É impressionante perceber como algumas coisas não mudam de país para país, Hornby compra mais livros que lê. Ou melhor, compra mais livros do que poderia ler em sua vida toda. E isso não significa que ele leia pouco, cada mês ele lê mais ou menos uns 5 livros, mas, por exemplo, em fevereiro de 2004 leu 10. Os livros são, em sua esmagadora maioria, ingleses. Em certo momento do livro Hornby chega mesmo a se indagar sobre a falta de traduções em suas listas, mas deixa isso passar sem maiores problemas.

Além dos livros propriamente ditos, as frases de Nick Hornby sobre literatura de maneira geral são ótimas! Muitas vezes elas conseguem expressar tudo aquilo que muita gente queria dizer. Selecionei algumas:

Os livros são, sejamos realistas, melhores do que qualquer outra coisa. Se criássemos uma espécie de luta de boxe cultural e fizéssemos com que os livros disputassem 15 rounds no ringue contra o melhor que qualquer outra forma de arte tivesse para oferecer, então os livros não perderiam nenhuma partida. Pode verificar, se quiser. A flauta mágica versus Middlemarch: um estudo da vida provincianaMiddlemarch ganha de seis a zero. A última ceia versus Crime e Castigo? Ponto para Dostoiévski. Está vendo aí? Não sei se isso é muito científico, mas parece que os romances estão ganhando disparado. p. 63.

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Richard Dawkins, Wheen lembra, certa vez ressaltou que se um remédio alternativo provar ser eficaz – isto é, se ele tiver mostrado suas propriedades curativas em rigorosos testes médicos -, então “ele deixa de ser alternativo; simplesmente passa a ser remédio”. Ou seja, é apenas “alternativo” contanto que não tenha mostrado ser realmente bom. Achei impossível não aplicar essa observação útil a outras áreas da vida. Talvez um romance literário seja apenas um romance que não funciona de verdade, e um filme de arte, meramente um filme que as pessoas não querem ver… p. 67.

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Qualquer pessoa que esteja fazendo uma oficina literária sabe que o segredo de um bom texto é enxugá-lo, retirar os excessos, peneirar, cortar, podar, aparar, remover tudo quanto é palavra supérfula, resumir, resumir, resumir. Em toda resenha sobre um escritor como, por exemplo, o sul-africano Coetzee, encontra-se a palavra “econômica” ou “econômico”, usada de maneira elogiosa; acabei de entrar no Google, onde digitei “J. M. Coetzee + econômico” e consegui 907 resultados, com raríssimas repetições. p. 76.

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Patrick Hamilton, que faleceu em 1962, é o meu novo melhor amigo. Li seu livro mais famoso, Hangover Square, dois meses atrás; p. 116.

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A vida nos Estados Unidos, pelo menos do meu ponto de vista, é muito diferente da que se leva aqui na Europa. Veja só: a mãe de Sean Wilsey era filha de um missionário. Fugiu para Dallas para ser modelo, fuga financiada pelas moedas das máquinas de guloseimas e das jukeboxes do tio. Foi arrastada para a Califórnia pela família furiosa e, enquanto trabalhava como garçonete, conheceu um major da Força Aérea americana com quem se casou durante um programa de rádio chamado The Bride and Groom. Ela se separou do major, namorou Frank Sinatra durante um tempo, casou-se com mais uns caras – um dos casamentos durou seis meses; o outro, com o advogado que defendeu Jack Ruby, durou três semanas. Arrumou um emprego na televisão e chegou até a ter um fã-clube. Foi então que se casou com o pai de Sean. Essas coisas não acontecem por aqui. Não temos missionários, máquinas de guloseimas ou Sinatra. Nascemos, por exemplo, em Basingstoke e ficamos por lá ou então mudamos para Londres. Deve ser por isso que não se escrevem livros de memórias por essas bandas de cá. pp. 201/202

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[...] a teoria que venho desenvolvendo recentemente: quanto menos há para se dizer, mais hermético o texto tende a ser. Quer dizer, é difícil encontrar um texto hermético sobre a Segunda Guerra Mundial, mas pegue um livro sobre, digamos, filmes de Russ Meyer: você vai reler trezentas vezes a mesma frase ininteligível sobre a importância pós-estruturalista da criação do diretor. p. 216

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Mas claro, nem tudo são rosas. Já tentei ler Hornby uma vez em inglês, sem sucesso. Lembro de ter achado o livro cheio de gírias e expressões cotidianas com as quais não estou acostumada. Pode ser isso que me deu a impressão que a tradução do livro foi um pouco “desleixada”. O texto de Hornby é frenético, suas frases são longas, seu parágrafos também e ele fala de 5 coisas ao mesmo tempo em cada um deles. Mas mesmo sabendo de tudo isso achei que o trabalho com a tradução, as vírgulas e a pontuação em geral deixou um pouquinho a desejar. Claro, não li o livro no original para cotejar, mas essa é minha opinião superficial.

Outro detalhe que me pegou foi a dificuldade de saber do que ele estava falando. Já disse que a maioria dos livros citados são ingleses, e por mais que eu goste do Jude Law não conheço o mercado editorial da terra da rainha de forma tão profunda. Claro, conhecemos melhor os livros publicados em inglês dos que os em francês, mas mesmo assim algumas coisas ficaram nebulosas para mim. Tal autor que é amigo de tal autor mas não gosta de tal, pois bem, perdi.

Uma coisa legal na ideia da revista (Believer) é que a coluna não poderia ter comentários que denegrissem a imagem ou obra de um autor. Era como se a guerra de egos do mundo dos escritores não pudesse entrar no terreno da revista. Isso impediu, claramente, que ficássemos sabendo quais foram os livros que Hornby leu e odiou. Mas ao ficar sabendo da política da revista ele resolveu tomar uma atitude simples que muita gente não pensa: parar de ler livros que sabia que não ia gostar. Explico melhor, Hornby sabia qual era seu “cardápio” preferido e se ateve a ele. Ler deve ser um prazer, não uma tortura. Será que lembramos disso sempre?

Mas nessa de cardápio literário encontrei meu primeiro desapontamento com o livro. Nick Hornby nunca leu ficção científica, e sua tentativa de leitura foi um fracasso completo. Ele odiou o gênero. Triste né?

Para quem gosta de música o livro também será agradável. Além de conhecer zilhões de pessoas do meio musical, Hornby acaba falando de livros sobre música. Boa pedida.

Escrever sobre livros nem sempre é fácil. Na maioria das vezes acredito que uma mistura de situações pessoais e impressões sobre as obras faz um bom serviço. Conhecemos um pouco sobre quem está escrevendo, e se nos identificarmos com algumas coisas talvez, eu disse talvez, possamos ter gostos literários parecidos. É isso que eu tento fazer aqui no blog, nem sempre com sucesso. Ler uma coluna sobre livros escrita por uma pessoa com bom texto em uma revista respeitada é sempre uma perdição: você só vai conseguir aumentar sua lista de livros para ler. Foi assim com Frenesi Polissilábico.

Título: Frenesi Polissilábico – O diário de Nick Hornby: um leitor que perde as estribeiras, mas nunca perde a esperança

Título original: The complete polysyllabic spree

Autor: Nick Hornby

Tradutor: Antônio E. de Moura Filho

Ano: 2006 (inglês) e 2009 (português)

Editora: Rocco

Páginas:  262

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A quem possa interessar, minha lista de livros selecionados e adicionados pós-Frenesi:

  • A fortaleza da solidão – Jonathan Lethem
  • Como respirar debaixo d’água – Julie Orringer
  • Meus dias de escritor – Tobias Wolff
  • Clockers: no mundo dos pequenos traficantes – Richard Price
  • Introducing Time – Craig Callender e Ralph Edney
  • Y: o último homem (HQ) – Vaughan, Guerra, Marzan Jr, Chadwick
  • We’re in trouble – Chris Coake
  • Jantar no restaurante da saudade – Anne Tyler
  • Biografia Allen Lane
  • Blood Done Sign My Name – Timothy B. Tyson
  • The trick of It – Michael Frayn
  • Housekeeping – Marilynne Robinson
  • Pure Pleasure – John Carey
  • Death and the Penguin – Andrey Kurkov

 

Novos vídeos!

Oi gente! Como passaram de carnaval? O meu rendeu meio capítulo da dissertação e mais 3 vídeos, iei! Já postei dois no youtube, mas vou deixar aqui também pra quem quiser ver!

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O próximo vídeo sai junto com o post de amanhã: Frenesi Polissilábico do Nick Hornby.

Sem estrelinhas e com carnaval

É gente, carnaval taí… Essa semana não vou colocar estrelinhas, provavelmente devo postar um vídeo, mas coloco o link aqui depois. Meu carnaval será bem animado, ficarei eu, ar condicionado, comida congelada e dissertação, todos abraçadinhos durante o feriado.

Desejo um ótimo carnaval para todos! Seja para pular, ler, descansar… Aproveitem!

Volto na próxima semana!

Beijo grande!

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