Sobre pessoas, aranhas e decoração.

Há algum tempo tenho percebido que não são os livros que você lê, os sites que você visita ou suas roupas preferidas que definem quem você é (mas se você for leitor assíduo de Diogo Mainardi e Gabriel Chalita a coisa fica difícil né amigo?). Conheço pessoas legais que gostam de livros chatos, e pessoas chatas que gostam de livros maravilhosos. Pessoas com quem posso conversar por horas sobre decoração, mas que discordarei de todas as ideias para maquiagem. Mas como podemos conhecer uma pessoa? Se não por seus livros, suas roupas e suas preferência, como saber se aquela pessoa casa com a sua?

Acho que é um cheiro, um cheiro de passado que vai juntando os possíveis amigos, uma rede invisível de aranha que vai “grudando” em cada pessoa especial da sua vida. Mas esse grude não depende de afinidade de paladares, depende da disposição de se colocar no lugar de outra pessoa. Vamos explicar melhor o que é isso pela negativa:

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Não são só os bons mosquitos que ficam presos na rede da sua vida. Alguns acabam grudando nas beiradas e você não consegue tirá-los de lá. Essas pessoas provavelmente farão (pelo menos) uma das observações abaixo em algum momento da convivência:

- Eu não consigo conversar com alguém que acha que Kafka e Kafta são iguais!

- As pessoas precisam parar de ler Nicolas Sparks!

- Mas quando você vai resolver o que realmente quer fazer da sua vida?

- Quando você vai finalmente casar/noivar/ter-filhos/fazer-intercâmbio/doutorado/mestrado/PhD?

- Até que enfim você largou daquele namorado horroroso que você tinha!

- A cor do verão é o camelo! Aposente já suas roupas nude!

- Mas essa parede cheia de quadros deixa o ambiente pesado! As paredes têm que ser brancas para ampliar o ambiente e só um quadro com moldura prata pode ser pendurado, de preferência em cima do sofá.

- [insira aqui a frase idiota de sua preferência]

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Essas pessoas são capazes de deixar qualquer um pra baixo, e são completamente insensíveis aos gostos, anseios e medos alheios. Para elas não é possível entender, e gostar, de uma pessoa que não pense exatamente como elas.

Uma boa forma de identificar essas pessoas é na hora de receber presentes. Elas nunca, jamais, em tempo algum conseguirão comprar alguma coisa que não seja do agrado delas. Afinal de contas, um presente nada mais é do que a possibilidade de impor seus gostos para outras pessoas? Não?

Outro traço marcante dessas pessoas de beirada são as afirmações. Sempre categóricas e pouco abertas à conversa. Ainda me impressiona como as pessoas têm tanta certeza em suas afirmações; tão pouco espaço para aprender (e por aprender eu quero dizer “permitir-se pensar diferente”) e um espaço grande para afirmar.

As “beiradas” (tenho certeza que você também conhece algumas) acabam corrompendo qualquer coisa, gosto ou lugar. É o pensamento delas que faz com que decoração, moda e maquiagem sejam vistas como monólogos, ou melhor, como jaulas que engessam possibilidades. Ou com que os livros acabem virando objetos que inspiram medo e preguiça ao invés de ansiedade e alegria. Mas o problema não está nessas áreas da vida, está nas pessoas (nessas pessoas que não se permitem um walking in someone else’s shoes). E elas não vão permitir isso em nenhuma área! Nem na literatura eslovena meu amigo!

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Ler um livro pode ser divertido mesmo quando você não concorda com o autor (menos os supracitados e afins)! Ver um vídeo de maquiagem com sombra azul, batom vermelho e blush terracota pode ser bacana! E veja bem, não estou falando de técnica. Não é bom ler/ouvir/ver algo que vai em direção contrária ao seu pensamento só para aprender como fazer. O bom de cada uma dessas opiniões é o fato de elas serem diferentes, e de você ser capaz de aceitá-las, entende-las e admirá-las.

Acredito que os amigos que grudam em minha teia sejam os que conseguem admirar os gostos alheios. Aqueles que odeiam vinho, mas acham o máximo observar o prazer que a bebida proporciona em outras pessoas. Ou alguns que adorariam ter uma casa toda de vidro e metal, mas que conseguem ver beleza e estilo em uma casa decorada à mineira. Aqueles que ficam felizes com a felicidade dos outros.

É como se cada pessoa fosse formada por uma infinidade de caquinhos coloridos. Cada um deles é um momento, um gosto, uma memória, um cheiro. E a maior virtude do amigo é ver esse mosaico e entender a beleza.

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E não venham me dizer “Mas então você seria amiga de um homofóbico? Já que o lance é respeitar a opinião dos outros?” Respeitar (e admirar) opiniões diferentes significa também entendê-las por aquilo que elas permitem aos outros.

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Em tempo, a imagem eu tirei do blog o novo alrida express, que não tem recebido novos posts. Mas o Daniel Duende (que eu “conheci” por um grupo de emails no Gmail o AINN – Agência Imaginária de Notícias Nonsense, e redescobri agora) ainda bloga aqui e aqui, e também no twitter.

20 pensamentos em “Sobre pessoas, aranhas e decoração.

  1. Pri diz:

    Perfeito. Mesmo. :-)

  2. Oi, Lu!
    Seu texto é não só belo, como muito oportuno.
    Nesses tempos em que as pessoas acham que devem vomitar seu sincericídio na nossa cara, ver alguém refletindo e propondo um pouco de tolerância e paciência é um alívio e uma esperança.

    Beijo, querida!

  3. Aline Aimée indicou, vim, li, adorei!

    Há algum tempo, eu achava que precisava escolher as amigas pelas afinidades e me sentia mal porque não conseguia encontrar uma que fosse exatamente como eu, acreditava em alma gêmea da amizade. Isso porque eu ainda não tinha descoberto que é muito mais enriquecedor crescer com as diferenças.

    Mais ainda quando os diferentes são aqueles que nos admiram também pelo que temos de tão oposto a elas. E que não nos impoem suas verdades, não nos massacram com suas complexidades. São descobertas que só a maturidade traz.

  4. Juliana G. diz:

    Ah como é bom ler textos assim, com opiniões assim. Como dia Aline é um alívio de esperança. Um descanso nesse caos modernos. Enfim, um suspiro…

    Obrigada!

  5. Tati diz:

    Também vim pela indicação da Aline e vou divulgar porque achei excelente.

    Houve uma época da minha vida em que eu achava que podia escolher meus amigos pelos gostos e só me aproximava de pessoas com gostos semelhantes aos meus. Hoje eu vejo o quanto isso é bobagem e o quanto algumas pessoas te cativam pelas coisas mais simples, como um gesto ou uma palavra. Enquanto tantas pessoas super cultas se mostravam umas chatas pedantes, que não viam outra coisa além do seu próprio umbigo.

    Amizade é um aprendizado de ambos os lados e quando você está em um relacionamento amigo onde a outra pessoa só te deixa estressado e triste, sai dessa amigo =)

    Beijos
    Tati

  6. tati diz:

    que coisa linda, Luara ;)

  7. Que texto maravilhoso, Luara!

    Me causou até um certo alivio pessoal. Tenho me irritado com pessoas até muito queridas, mas que acham que suas opiniões são lei. Que se expressam como se nada mais e nem ninguém fosse certo… Fico naquela de “como posso admirar essas pessoas em tantos momentos e em outros querer dar um ‘dislike’ nela na vida real?”… isso estava me causando uma certa perturbação e me senti um pouco mais tranquila com seu texto. Quero me manter firme em sempre respeitar e entender toda opinião alheia (mesmo quando falam mal de Nicholas Sparks, rs)

    • É, minha tentativa é de entender as opiniões diferentes da minha desde que elas também entendam a dos outros! Quem sabe assim fica tudo um cadin melhor né? ;)

  8. Mylena M. diz:

    Posso repetir o comentário da Juliana? :)

    Ótimo texto! Todo mundo devia ler e parar um pouquinho pra pensar!!

  9. Michelle diz:

    Disse tudo. Tão irritante quanto pessoas sem opinião são aquelas que se consideram as únicas com a opinião certa, que se fecham ao diferente, que não sabem ouvir, que não se dão nem ao trabalho de discordar – simplesmente preferem ignorar.
    Bjo

  10. readninaread diz:

    Amei seu texto, moça!
    Beijo.

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