Onde se escondem os filmes para adultos?

[Se quiserem ler o post com trilha sonora aqui vai o link pra trilha do filme no youtube]

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Não se preocupem, o post não é sobre filme pornô.

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Acabei de assistir A arte da conquista (The art of getting by, 2011) e uma dúvida me surgiu: onde as distribuidoras guardam os filmes com personagens entre 20-35 anos?

Não me entendam mal! Adorei A arte da conquista, é um filme fofo, com uma trilha sonora pop delícia! Mas os personagens principais estão se formando no colégio! Até existe um “adulto” no filme, mas definitivamente não é com ele que a empatia rola.

Vamos falar um pouco do filme: George (17 anos) é um adolescente fatalista. Nada de suicídio ou afins, ele simplesmente aceita a vida (e a morte). A pergunta que acaba preocupando o mocinho é “pra que?” já que o final é igual para todo mundo, por que fazemos o que fazemos? Nesse movimento todo, George acaba não conseguindo se encontrar, não sabe o que fazer quando acabar o colégio e muito menos como se virar até lá. Já Sally (também 17) é uma menina popular (alguém mais se incomoda com essa descrição?) mas complicada, nada da patricinha cheia de nhem-nhem-nhem que estamos acostumados. Os dois ficam amigos, e a partir daí não posso contar mais nada sem spoiler!

Bem, quando você assiste o filme são as dúvidas de George que fazem com que a identificação aconteça. E você para e pensa: cara, eu estou me identificando com as dúvidas de um menino de 17 anos que deve pesar uns 30 quilos! Onde foi parar minha maturidade? Por que minhas dúvidas são iguais às dele?

Essa pulga ficou atrás da minha orelha depois do filme. Resolvi fazer o que qualquer pessoa sensata faria: googlei minha dúvida. Qual não foi minha surpresa ao encontrar alguns sites gringos dizendo que “se você tem entre 24-30 anos vai se identificar com o filme e sua trilha sonora”. Mas peraí! Se o menino do filme tem 17 anos porque eu vou me identificar com ele? Fiquei um pouco mais tranquila ao saber que não era só eu, mas ainda não estava bom.

Comecei a pensar nos últimos filmes que contavam a vida de personagens com simplicidade, (sem ser arte nem ação ok?) e não consegui lembrar de nenhum com personagens que fossem “iguais” a mim. Vejam bem, tenho 25 anos, vou terminar agora meu mestrado, não tenho nenhuma perspectiva de trabalho, muito menos sei o que (ou se vale a pena) fazer no doutorado. Angústia pode bem ser a palavra que define boa parte da minha vida no momento. Quis encontrar personagens (carismáticos) que fossem parecidos comigo, pelo menos na faixa etária, mas nada me veio à mente.

Dos últimos filmes que assisti fiz uma lista (IMDb-santo me ajudou):

  • A arte da conquista – 17 anos
  • Blade II – não tenho ideia já que ele é um vampiro!
  • Robin Hood – Rusell Crowe tá quase com cinquentinha viu gente?
  • As Crônicas de Nárnia 3 – são crianças!!!!
  • Elizabeth – Cate Blanchett tem 43, aquela linda.
  • Ensaio de um crime – não tenho nem ideia da idade!!!
  • Nosferatu – vampiro feioso que pega moça novinha!
  • O amor chega tarde – 80 anos!
  • Amanhecer (sim eu vi!) – 17 anos
  • Minhas tardes com Margueritte – a dona tá no asilo gente!
  • Potiche: esposa troféu – a principal é a Deneuve, sem mais.
  • Um conto chinês – Ricardo Darín (monopoliza o cinema argentino)

E acho que tá bom né? Deu pra ter uma ideia.

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Agora me digam: onde estão os personagens cinematográficos com 20 e poucos anos e contas para pagar?

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Acho que esqueci como passei minha adolescência, não lembro quais eram meus medos e meus problemas, mas prefiro acreditar que eles eram diferentes dos de hoje. Espero, espero mesmo, que 7 anos e uma faculdade e meia depois alguma coisa tenha mudado dentro de mim.

O que me leva à minha próxima questão: o que vemos nos filmes é o que eles mostram ou o que nós queremos ver? Veja bem, minha dúvida é se meus anseios são transportados pros personagens, assim posso me identificar basicamente com qualquer coisa.

Foi muito fácil olhar aquele George (tá, foi fácil até eu lembrar que conhecia ele da Fantástica fábrica de chocolate) tentando se descobrir e ver que eu também não sabia o que estava fazendo. Mas não foi fácil ver que esse personagem tem 17 anos!

Agora, fora todo esse blá blá blá de teoria da literatura (nós, o leitor, o personagem, o autor, enfim!) eu fico indignada: precisamos de mais filmes com pessoas como nós! Gente como a gente, que ganha pouco, saiu da faculdade e ainda não encontrou (ou tem perspectiva de encontrar) o emprego dos seus sonhos. Que não sabe se casa ou se compra uma bicicleta. Que não sabe se ama ou se deixa pra depois, por que uma coisa não nos falta: tempo.

Acredito que esse anseio seja característico de uma geração. Se for parar pra pensar a geração dos meus pais já tinha seus filhos aos 25 anos, já precisava trabalhar pra se sustentar e alimentar um bacuri. Mas isso mudou agora, das minhas amigas poucas tem filhos, poucas são casadas, e poucas têm previsão de ser uma coisa ou outra.

Estar nesse limbo etário não é fácil! Não podemos reclamar do ciático, mas também não queremos mais ficar sexta, sábado e domingo balançando o esqueleto ao som de música ruim e cerveja quente. Não temos dinheiro pra comprar aquele vestidinho preto eterno, mas também não dá pra sair por aí vestindo camiseta do colégio. Papai e mamãe já não podem me sustentar, mas ainda não tenho condições de pagar todas as minhas contas. Resumindo: quero muito e posso pouco.

Seria, no mínimo, reconfortante ver minhas angústias em algum filme, não artístico, não filosófico, não piegas, só o que a gente é, um pouco de tudo isso sem ser tudo de nada.

26 pensamentos em “Onde se escondem os filmes para adultos?

  1. Também sinto falta desses personagens. Personagens que como eu, tem uma vida assalariada, com 30 anos, e problemas com contas e em como resolver a vida de “gente grande”. Acredito que o cinema tenta passar, de certa forma, uma versão “a vida é bela” do mundo, concordo e discordo com essas versões. Mas… Realmente faz falta ver nossa realidade sendo demonstrada no cinema.

  2. De fato Lu, sua angustia ao assistir este filme eu já tive e tenho as vezes, é estranho. Cada vez que me deparo com ela me recordo do filme Clube da Luta em que o Tyler fala que somos uma geração sem grandes acontecimentos, sem guerra, sem perspectivas (e com muitas esperanças).
    A um tempo atrás lembro te visto um filme bacana e que os personagens tinham angústias para pessoas da nossa idade, talvez você goste.
    “Histórias de amor duram apenas 90 minutos”
    Bjos. inté

  3. juliana diz:

    de verdade, fiquei até sem ter o que comentar. post perfeito.

    eu tava falando mais ou menos disso com uma amigo dia desses, só que vc disse bem melhor que eu, deu voz pra minha ” angústia”.

  4. Mylena M. diz:

    Bom, tenho 18 anos e me questiono sobre muitas coisas que você citou no texto, só que eu me questiono com relação a faculdade, enquanto você se questiona quanto ao doutorado, e enquanto meu pai (43) se questiona a aceitar ou não um emprego, e por aí vai… acho que os questionamentos sobre o que fazer do futuro fazem parte de qualquer idade (apesar de não ver tanta gente da minha idade se questionando a respeito de coisa alguma), e talvez por isso um cara de 17 anos que não sabe direito o que fazer da vida cause tanta identificação, e com tantas pessoas, não só você; porque acho que no fundo ninguém sabe direito o que fazer ou esperar da vida :x
    Independente, porém, de identificação, concordo que faltam faixas etárias de personagens, e outras personalidades também, nos filmes :/

  5. Lia diz:

    Oi, Luara
    Muito bom seu post; concordo com vc, apesar de já não pertencer mais a sua faixa etária. Vou recomendar uns filmes que vi recentemente que não são exatamente sobre os problemas que vc cita, mas acho que cabem no contexto:
    Beginners (com o Ewan McGregor)
    Love and other Drugs
    Blue Valentine (tem uma ótima trilha sonora tb)
    Não sei os títulos em português, sorry…vou tentar lembrar de mais alguns. Bjs

  6. Lia diz:

    Ah, lembrei de um filme que é exatamente o que vc quer, mas é de 1994. O nome em inglês é Reality Bites, foi dirigido por Ben Stiller e tem Winona Rider e Ethan Hawke no elenco. Eu adoro esse filme! Bjs

  7. Lia diz:

    Beginners tem um tema diferente do que vc disse aqui, mas tb é sobre alguém tentando se encontrar; acho que vai gostar! Bjs

  8. Lili diz:

    Que coisa!!! Tenho 26 anos, sou bem sucedida profissionalmente, mas sempre sinto a tal “angustia”. A cada promoção que eu tive perdi um amigo, agora estou praticamente sozinha… Parece que vamos ficando anestesiadas, eu por exemplo não acredito mais nessa história de principe, alma gêmea e blá romântico. Quando me formei vivi muito tempo no limbo, cerca de dois anos, realmente é complicado. Porque vc não dá aula em Universidade? bjs e boa sorte

  9. Thays diz:

    São realmente raras as produções audiovisuais que dialoguem com nossa realidade, angústias e anseios… Mas confesso que me identifiquei com duas produções que me satisfizeram: o filme “Antes do pôr-do-sol” (embora os personagens estejam no começo dos 30 e poucos e anos, penso eu) – acho que é um filme belo e ao mesmo tempo lúcido em relação às expectativas da vida e na questão amorosa – e um seriado canadense que à primeira vista “viaja bastante na maionese” (gíria que está se tornando idosa :P ) mas que mostra as etapas de insegurança que passamos (chama-se Being Erica).

    Não sei… Talvez a frustração por ver um personagem mais jovem do que somos com o mesmo tipo de preocupação seja causada pela propaganda de linearidade da vida.
    Não é porque atingimos certa idade que os problemas básicos se resolveram… Talvez mude só a forma como eles se apresentam. E são sempre os mesmos medos aparecendo com roupagem nova… Ou não.

    • Acho que vc tem razão quando diz que os medos são sempre os mesmos…

      “Antes do pôr-do-sol” eu não gosto muito não. Mas “Being Erica” eu estou DOIDA pra ver!!!!!!! rs
      Beijo!

  10. raqtoledo diz:

    Oi Lu!
    Eu ia falar do Amor e outras drogas. Não sei se ele se encaixa bem no que vc tá dizendo… mas veja. Vale a pena (e é lindo!!!).
    Um outro bem bobinho que vi, mas que fala de carreira, de se achar como profissional e, claro, arranjar um amor, é o Manhã Gloriosa. É um filme me água com açúcar. Vi porque vejo sempre todos os filmes com a Diane Keaton (fixação) e não me arrependi desse.
    Fora isso, acho que os seriados tem mais nossa “idade”, principalmente os que se passam em NY, tipo gente tentando ser alguém na vida. Dos antigos, os clássicos Friends e Sex and the city. Dos novos, tá passando na Warner um que chama Two Broke Girls, sobre 2 meninas que estão tentando abrir o próprio negócio… é uma comédia. Não vejo sempre, sempre. Mas quando vejo, dou risada e me identifico.
    Ah, o Julie e Julia, do livro que tô lendo, tbm deve ser assim. Pq a Julie tem 29 anos, trabalha num lance que odeia e tem um monte de problema bem parecido com o meu monte de problema. A única questão é que ela é casada (a única casada entre as amigas dela), o que caiu como uma luva em mim <3
    Beijos, Lu!
    Parabéns pelo texto!

  11. Daniela diz:

    E eu que pensava que era uma reclamona, que achava pelo em ovo. Estou sempre com essa angústia de não saber se caso ou compro uma bicicleta, num dia quero o mestrado, no outro quero a segunda graduação, no outro quero largar tudo e ser feliz, no outro quero sair do país e tentar a vida do outro lado do oceano. E já que ficamos anestesiadas com as dúvidas e, no meu caso, não tomo uma decisão favorável para uma ou pra outra vontade, seria realmente bom ver esses medos e anseios, dúvidas e crises dos 20 e poucos na tela. Fiquei pensando aqui em filmes que se encaixem na categoria, continuo pensando…. pensando ainda. Não. Não achei nenhum, mas vou continuar pensando.

  12. [...] dos posts que eu mais gosto de ter escrito aqui é o “Onde se escondem os filmes para adultos”. Claro que isso gerou uma chave de procura um tanto estranha pro blog, afinal de contas, quem [...]

  13. Michelle diz:

    Você traduziu em palavras a angústia que sentimos ao não termos nossos “problemas típicos da idade” retratados nos filmes. Quando você mencionou que não há personagens de 30 e poucos anos, imediatamente pensei “existe sim!”, mas são todas (veja bem, todAs) mulheres solteironas ou que acabaram de se divorciar e que querem se dar bem na carreira e ao mesmo tempo conquistar o príncipe encantado (Bridget Jones, protagonistas dos livros da Marian Keyes e similares). E daí, realmente, fiquei sem saber se é pior não ter essa faixa etária retratada ou ver representada de forma tão caricata e frustrante. Porque, veja bem, não é que não goste das balzaquianas e suas trapalhadas, mas é só isso?
    bjo

  14. Michelle diz:

    Ah… desculpe o comentário/desabafo.
    Alguns desses que citaram aí em cima eu gostei (não sei se tem a ver, mas gostei): Amor e outras drogas e Uma manhã gloriosa. Vou ver se lembro de algum filme bacana e te aviso.
    bjo

  15. Michelle diz:

    Fiquem pensando nisso antes de dormir e, adivinhe? Lembrei de vários: Albergue Espanhol, Bonecas Russas (Continuação de Albergue Espanhol), Minhas Palavras, Minhas Mentiras, Bom Apetite, Como Arrasar um Coração. Talvez seja só coincidência, mas, enquanto tentava achar filmes americanos, não consegui lembrar de nenhum. De repente, assim que o primeiro europeu surgiu na minha cabeça, os outros foram aparecendo na sequência. Será que os americanos só se interessam pela adolescência? Se assistir algum, conte depois o que achou. Boa sorte!
    bjo

    • Albergue Espanhol eu vi! Vc tem razão! E agora que acabei de ler Daytripper (vou fazer post em breve) concordo ainda mais com a Mylena, essas d;uvidas existem sempre, mas por algum motivo os filmes fazem “pouco caso” delas…

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